Sexta-feira, Novembro 25, 2011

“um dia pra destilar o tempo. porque o tempo também destila os corpos” (trabalhador do mar)

O circo está morrendo! Ora, mas se o espetáculo não pode parar, como sempre ouvimos, o que se há de fazer?
Onde estão as crianças que esperam o circo chegar ano após ano? Que tentam fugir com ele quando se vai? O circo morreu!!!?
O que eles querem é que assim tu penses.
Nas mais subterrâneas entranhas habitam as microrevoluções. Nos corpos, nos entres dos enquantos, nas ruas de rios e sons de mata fechada. Fechava, pra abrir-se em vísceras as potências de vida. Criatividade, afetividades, sexualidade, vitalidade e transcendência. Em cada átomo de existência, pulsam as vibrações vitais, a cada limite superado, medo enfrentado, a cada dor calmamente acolhida e vivenciada até que cesse...
A arte está nas vísceras, não nos genes. Há que se descobri-la, libertá-la. Sobra de vida no circo o que falta de valorização. Sobra de multiplicidade, o que falta de multiplicadores. É compreensível, afinal, o circo não se institucionalizou. Ora, mas se me dirás que ministérios e fundações são formas sorrateiras de aprisionamento institucional, o que posso te dizer, se não da inventividade das artes, em fazerem-se contra-molas de resistência do centro da própria engrenagem. Arte como direito é conquista, e não engane-se pelo contrário. O que eles querem, é que assim tu penses.
Nas reinvenções e revoluções nos corpos, dançam os modos de re-existência. Desafiando a matéria, as leis, a gravidade, a ciência, o sistema, e tudo o mais que for aprisionante, até a dor, os artistas ousam ir até onde está o que há de mais perigoso: as liberdades. Militantes, genuinamente libertários.
Escolheu viver de arte, que tal?
Escolheu viver de liberdades e libertações. De inventar magias, espalhar sentires, e guardar encantos, sem amarras, pra lá de onde os olhos fecham.

Terça-feira, Outubro 25, 2011

De andar a pé...

foi hoje, exercitando minhas percepções energéticas dos devaneios.
Que fui a pés, ao ver o peso, olhando bem a rua e as pessoas. Lá provei e cheirei o que pude, numa tentativa de não esquecer as sensações. E não esqueci, nem dos mimos, nem das mandingas, pra levar.

Fiquei tão exausta quanto estava extasiada, desisti de voltar a pés. O ponto estava bem na minha frente, mas algo me fez caminhar até o ponto seguinte. Aquele dos retornos dos encontros do arraial. um devaneio.

Logo descobri. Era pra encontrar um velho amiga taxista de não se ver há mais de 10 anos. Foi pra ganhar uma carona pra casa, e no caminho receber lições de vida, das exatas que precisava, e que esses maiores ouvidores de histórias e estórias que já se viu, sempre têm. Os filósofos dos encontros breves, da escuta, de bagagem de desabafos.
 
em 27/07

Quinta-feira, Outubro 06, 2011

Alvorada

"O céu ainda era inteiro estrelas quando os fogos despertaram a comunidade. Ainda dava pra ver daquelas que se ajeitam em desenhos, feito as que ajudavam em tempos antigos nossos irmãos a rumar para paragens outras, as de liberdade.
Feito buscassem também o rumo da liberdade, as gentes iam seguindo o som da Folia.

O destino era a ramada. Eram os foliões do santo preto, que começavam os toques pra celebrar a chegada do dia, que vinha se rasgando em luz, e despertando do seu sonho de noite estrelada.

“Já se vem a estrela Dalva, também vem rompendo o dia

Acordai cravo e rosa, acordai que já é dia

Acordai quem está dormindo, deste sono tão profundo”

E as gentes respondiam em coro de esperança. Celebrando o início dos festejos dos próximos dias, ao homem que virou santo por escolher viver de amor, Francisco de Assis."

em 30/09

Quinta-feira, Agosto 04, 2011

Faz um pedido, ao cosmo.
Diante da imensidão
Do preto profundo da imensidão
Só não mais preto que o peito do rio que reflete
Por ter o tilintar das cintilâncias
Enfeitando

De vez em vez, tem uma que cai.
E faz um rasgo no preto.
Não dos rasgos de que dizia Zé da luz
De arriar o bucho do céu.
Rasgo feito ele,
De poesia, rasgo de luz.
Convidando a desejar
Profundo feito o céu rasgado.
Fiz um pedido ao universo
Pedi pra me mandar outra
Pra ver rasgar de novo e enfeitar os olhos
E de novo, e de novo.
Até rasgar o olhar
E aí eu dormir
Pra, em sonhos, enfim pedir
O pedido mesmo, vindo da profundidade
E que elas, insistentes,
Quiçá já soubessem
E deviam estar tentando me mandar.

Domingo, Junho 05, 2011

Morrer não dói.
Mas medo de morrer não mata e, afinal, nem é incoerente. É medo de ir para qualquer paragem outra, desconhecida, sabe-se lá onde, antes de realizar os sonhos, antes de aprender a cozinhar, ou de visitar aquele velho amigo que se está devendo um café.
Medo de ir e deixar amores não ditos, reencontros não vividos. Imagine, morrer e deixar o grande sertão sem suas veredas todas lidas.
“A morte, pra quem fica, é tão avassaladora, que só pode estar viva”. Mas morrer nem dói.
Medo de morrer não mata e, afinal, nem é incoerente.
Medo de viver, sim.

Terça-feira, Abril 19, 2011

Nada me aterroriza mais do que a idéia de aprender a amar. Eu sei que existe, é possível, mas é uma escolha apenas confortável, quiçá inteligente (?). É acostumar-se, e apreciar a rotina. “Com.forma.r-se”, ou ajustar-se a uma forma, adaptar-se. Violentar-se. O que eu quero mesmo é distância da zona de segurança, quero intensidade, entrega, quero vísceras. Quero sentimentos que não pedem licença, daqueles que vão entrando, arrombam a porta, e d’uma vez esculhambam o juízo que a gente leva uns anos pra arrumar. Hoje eu decidi, não quero mais esquecer. Não quero mais evitar. Quero errar sim, e chorar a cada erro. A cada amor despedaçado, violentado, ou não-correspondido, daqueles enterrados vivos nos relicários. Por eles quero lágrimas grávidas de vitalidade, não de estados de coma camuflados de autocontrole. Quero chorar de saudades. Quero pecar por demasiada entrega, até por ingenuidade, menos por medo. E no dia que meu coração parar, que seja de tanto bater. De tanto amar.

Sexta-feira, Abril 01, 2011

Se os mestres fossem outros...

Foi quando estávamos fazendo o trabalho de CFB dele, ciências físicas e biológicas. O tema era parasitismo, e entre carrapatos e piolhos, terminamos. Passamos ao trabalho de estudos amazônicos – quem me dera ter tido essa disciplina na escola. A música trazia um verso forte. “Por que ninguém nos leva a sério, só o nosso minério?”. Discutíamos as relações políticas envolvidas, eu tinha muito mais dificuldade em explicar do que ele em entender. Chegamos ao exemplo de Belo Monte. Fizemos um mapinha de como funciona uma usina, e falamos dos impactos ambientais e sociais (e tudo junto) que ela traz. “E se as pessoas não quiserem sair? A casa é delas”. “Por que elas não simplesmente ficam, trancam a porta?”. “Por que não fazem um protesto?”. Perguntas que me estapeavam, mas não me surpreendiam. Não demorou muito pra vir a grande lição do dia, em que finalmente o todo foi compreendido. Por mim. “É uma relação de parasitismo”, ele dizia, diante da minha cara, metade de curiosidade, metade de confusão. “O parasitismo é uma relação que ocorre na natureza, entre os animais. Nela, um lado se dá mal, e outro se dá bem. Os parasitas, que são as empresas e os outros interessados, se instalam e se beneficiam dos hospedeiros, que são prejudicados. Nós. Eles não nos matam diretamente, como na predação, mas podemos morrer pelas conseqüências da relação”. Acabei aprendendo em algumas palavras o que tentei, com dificuldade, explicar em tantas. E lá eu estava, encantada, mas não surpresa, com a sabedoria da simplicidade. Voltei pra casa pensando em como seria o mundo se as crianças fossem nossos mestres. Meu mestre do dia foi o Antonio Victor, 11 anos.

Terça-feira, Março 08, 2011

“Esse rio é minha rua...”

Das entranhas da Amazônia, a vida se escorre. Afrouxa e aperta.

Eis as nossas Veredas,

É feito galopar entre os ser-tantos...

, de casco, barco, rabeta, voadeira em revuada...

Mas aqui, o senhor sabe. Não tem encruzilhada daquele que não se diz. Ou tem? Quem vai saber... Eu é que de nada.

A diferença é que aqui nessas paragens o tudo é nosso, a mãezinha que deu. Não tem contramão. O desassossego é o mururé engatado, e a fruta teimosa que se agarra no galho, feito se soubesse que vira vida nossa, des-vida dela.

Mas tem os omis que vão alagar o isso todo. e sem carecimento. É feito aquele índio véi dizia. Quando eles terminarem de destruir tudo, vão entender que não podem comer os dinheiros sobrados. Assim o é. Assim é o ser, tão.

E no enquanto, segue a.mar.é...

Os versos da vida vão se fazendo, na rapidez dos amores como ritmo. Nem mais, nem menos.

Viver é muito perigoso....

Domingo, Fevereiro 06, 2011

Versos conduzem o mundo...

Como Drummond me contou que a ausência não é falta, Descobri que o silêncio também não é ausência. São os sons do mundo todo, pregados na existência. É escutá-lo, disse um poeta-anjo, no entre dos encontros que esfarelam o juízo. E o sons, são como sinais, Na pele do mundo-quase. O que a vida quer da gente é intensidade. [e coragem] “Viver é muito perigoso”... Eu queria era ser poeta, Poesia eu já sou. Filha do amor, E não aceito nada menos do que ele. Do que sê-lo.

Quarta-feira, Janeiro 05, 2011

Libação

foto: Adonis Comelato
É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura a ploriferação
os cromossomiais encontros, os brotos os processos caules,
os processos sementes
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores
As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas
É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza
É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas, cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio
Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro
Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.
A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores! Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
Elisa Lucinda